Ontem a Traysi veio aqui em casa e nós conversamos sobre o impacto que é ter o primeiro filho.
Apesar de eu achar que ainda tenho momentos em que estou sob os efeitos desse impacto, já dá pra falar – escrever – sobre isso.
As duas primeiras semanas de vida do Caio não foram fáceis pra mim. Pra começar, a reviravolta hormonal me abatia todo o fim de tarde. Me dava um “blues”, uma vontade de chorar, às vezes uma tristeza – dá pra acreditar? –, parecia que nada fazia sentido, nem o presente, nem o futuro... me dava medo do porvir, medo da minha mãe ir embora, medo de tudo enfim... tudo ao mesmo tempo agora. Essa foi sem dúvida a pior parte dessas duas semanas, pois os desafios tomavam um dimensão ainda maior do que tinham em realidade. Quando Caio completou duas semanas de vida, isso passou, thank God.
Outra coisa que eu acho que é mais difícil para as “control freaks”, como eu me considero, é o fato de repentinamente não teres mais controle sobre a tua vida. Tua rotina muda de uma hora pra outra e, como disse a Traysi, há um choque! Por mais que as amigas te falem da mudança de vida, etc., só quando passas por isso é que entendes o impacto que um filho causa. E mesmo eu, tão maternal, tão louca por criança a vida toda, tão certa desde pequena que queria ter filhos, fui bombardeada por esse acontecimento que eu conscientemente escolhi pra minha vida.
Para agravar, pra mim é extremamente desafiante não ter certeza das coisas. Tudo começa com: será que é fome?, será que é cólica?, será que ele precisa arrotar? E termina com: hummm, acho que era fome mesmo, acho que foi uma colicazinha, acho que era a fralda suja causando o desconforto, acho que ele só queria mudar de ambiente. Só no “acho”, nunca no “tenho certeza”. Esse “jogo de adivinhação” é (era) quase uma tortura pra mim (aos poucos tô tendo que me acostumar com uma vida sem certezas, ao menos enquanto Caio ainda não sabe me dizer qual é o problema).
Tudo isso, pois, foi parte do meu choque. A parte prática em si foi tranquila – não tive problema ou insegurança pra trocar fralda, vestir, dar banho ou mesmo dar de mamar (apenas um dia senti dor). Parecia que tinha feito essas coisas a minha vida toda (teria sido o “treinamento”com meu afilhado?). Mas emocionalmente fui pega de surpresa. Eis abaixo algumas coisas que se passavam pela minha cabeça nesse primeiro mês:
- quando sabia de alguém que tinha engravidado ou que tinha tido filho: “ai, coitada, vai passar por essas terríveis primeiras semanas...”
- “eu entendo quem escolhe não ter filhos, não passar por essa mudança de vida chocante”
- “admiro quem tem gêmeos – imagina o trampo que não é?”
- “admiro quem tem a coragem de ter mais de dois filhos. O máximo que eu consigo é passar por isso duas vezes”
-“todo mundo diz que ter filhos é a melhor coisa do mundo. Ainda não senti isso, só sei do trampo e do impacto que é”
Pouco a pouco (outro desafio pra quem é impaciente como eu – só no “pouco a pouco”) as coisas estão melhorando, claro. Já começo a entender meu filhinho, apesar de que desconfio das certezas. Ele já sorri pra mim, e a partir daí comecei a sentir mais prazer em toda essa nova situação. Não que eu já não amasse Caio – sinto amor por ele em mim desde a gravidez, e tudo o que eu quero sempre é que ele esteja bem! Mas o prazer e a paixão por esse bebê muito fofo têm se desenvolvido no dia a dia. Hoje penso nos filhos das minhas primas e amigas. Quando eu estava com eles e chegava a hora de dar tchau, eu sempre pensava que não tinha gastado ainda toda a minha vontade de estar com ele/a. Agora, tenho o meu bebezinho! Não preciso dar tchau pra ele! E isso já me deixa feliz!
Posfácio
Comecei a escrever este post no sábado e terminei no domingo. Nesse meio tempo, me separei do Caio pela primeira vez. Dei uma aula de dança do ventre numa despedida de solteira. Fiquei ao todo 2h25min longe de casa. Decarlos ficou com o Caio.
Quando eu caminhava do carro até o estúdio de dança, me senti diferente. Já não era mais a mesma Dulce que fez esse caminho tantas vezes. Eu já não era mais aquele “indivíduo individual”, livre, que pode fazer o que quiser quando quiser. Alguém dependente de mim me fazia menos independente – não é curioso? Agora eu sou mãe. Foi um sentimento estranho durante aquela caminhada.
Duas horas depois, eu voltava pro carro pelo mesmo caminho. A aula de dança me fez muuuuuito bem. Incrível como a maternidade faz algumas coisas perderem o sentido, outras ganharem, e outras ainda mudarem de sentido. Ter feito uma atividade totalmente minha me deu o “feeling” de que nem tudo estava perdido, de que parte da “velha Dulce” ainda ia se manter, de que eu ainda conseguiria ser eu mesma – the same old me – em algumas situações. Isso foi tão importante pra mim que cheguei a ter lágrimas nos olhos.
Ahhhh, esse turbilhão de emoções...!